Pensei em ti.
Dou voltas e mais voltas na cama
sem conseguir adormecer. Já é tarde, mas nem o cansaço vence a persistência de
uma memória de ti. Parece que o meu eu mais sonhador ainda não acredita que és
um pretérito, ausente, que nunca se tornará futuro. Tento afastar todas as
lembranças do que foste. Uso os mais infalíveis truques e nem estes resultam.
Contorno-os num piscar de olhos, o que se traduz num novo vislumbre de uma
recordação do teu rosto e em mais uma volta na cama. O meu eu conhece-me
demasiado bem, para que o possa enganar. Desejo-te, enquanto repito para mim
mesma que já não és real. Desisto desta luta. Pego no telemóvel na esperança de
que todas as histórias de amor (as verdadeiras, não as sonhadas) partilhadas
nas redes sociais, num mundo que vive de aparências e acredita que essas mesmas
histórias são pequenos contos de fadas, me façam nelas focar toda a minha
atenção. Ilusão transitória. Passo para assuntos mais científicos que requerem
mais concentração. Saltito por entre fotos e dicas de maquilhagem e pelas
últimas tendências da moda. Leio notícias da atualidade que são quase tão
deprimentes como os cemitérios a 1 de novembro. Parece que finalmente já não me
recordo de ti. Parece. Em breves segundos, aparece-me a atualização de uma
fotografia que acabaste de publicar. E ali estás tu: lindo, calmo e sereno como
se não houvesse alguém no mundo a dar voltas e voltas na cama sem te conseguir
esquecer. Mas há.

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