quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Chamada*


Entro no autocarro, sento-me. Ela entra em seguida a falar ao telemóvel. Fala em voz alta como se no mundo só habitassem os dois: ela e ele. Ele, do outro lado, vai respondendo ao bombardeamento de perguntas a que está sujeito. Farta-se. Os tons de voz elevam-se. Ela senta-se. Discutem por coisas tão banais que se torna ridículo sequer serem lembradas. Ela troca de lugar e de tom. Finge-se aborrecida com a desatenção irreal dele para com ela e que só existe na cabeça dela. Implora-lhe que a trate como se fosse única no mundo dele e sabe que o é. Ele chama-a de fofinha e princesa. Ela de parvo e tonto, entre amuos e sorrisos. Como os invejo!
Aos poucos, a ternura vem ao de cima e ela confessa que ele a anda a habituar mal com tanto mimo. Já não sabe o que é dormir sozinha, sem o ter a seu lado. Dão risadas tímidas entre piropos. Como gostava de ter alguém assim!
           Despedem-se. Desliga a chamada com a saudade já a apertar e segue viagem com um eterno e doce sorriso nos lábios.

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