[Saudades do pôr-do-sol. Do tempo em que o mar se reflectia
nos meus olhos. Do dourado que nos cabelos resplandecia. Saudades do tempo que
já foi e já não o é. Saudades de mim, do que fui, do passado que me tornou
presente. Nostalgia da esperança que existiu. Melancolia ao reviver o vivido.]
É nesta rua que ela caminha. Pensa e repensa, solidão no
meio da multidão. Vê o que já foi, no que se tornou e o que poderá vir a ser.
Acima de tudo, anseia conseguir ser ela própria. Única, com todas as suas
qualidades e defeitos, maneira de ser, enfim, ser-se a si mesma. Passo após
passo, ataca o solo que milhares de pés já atacaram, ou este os atacou. A
típica calçada portuguesa faz com que, por vezes, o ritmo da passada seja
cambaleante. Avança no percurso e recua com o pensamento. Dois lugares, o mesmo
instante. Lugar físico e lugar memorizado coexistem em simultâneo. Ela
recorda onde já esteve, o que já sentiu, o que já viveu. E é ao recordar que sente, bem de perto, o nome
da rua que percorre: saudade.