domingo, 6 de dezembro de 2015

Pensei em ti*


Pensei em ti.

Dou voltas e mais voltas na cama sem conseguir adormecer. Já é tarde, mas nem o cansaço vence a persistência de uma memória de ti. Parece que o meu eu mais sonhador ainda não acredita que és um pretérito, ausente, que nunca se tornará futuro. Tento afastar todas as lembranças do que foste. Uso os mais infalíveis truques e nem estes resultam. Contorno-os num piscar de olhos, o que se traduz num novo vislumbre de uma recordação do teu rosto e em mais uma volta na cama. O meu eu conhece-me demasiado bem, para que o possa enganar. Desejo-te, enquanto repito para mim mesma que já não és real. Desisto desta luta. Pego no telemóvel na esperança de que todas as histórias de amor (as verdadeiras, não as sonhadas) partilhadas nas redes sociais, num mundo que vive de aparências e acredita que essas mesmas histórias são pequenos contos de fadas, me façam nelas focar toda a minha atenção. Ilusão transitória. Passo para assuntos mais científicos que requerem mais concentração. Saltito por entre fotos e dicas de maquilhagem e pelas últimas tendências da moda. Leio notícias da atualidade que são quase tão deprimentes como os cemitérios a 1 de novembro. Parece que finalmente já não me recordo de ti. Parece. Em breves segundos, aparece-me a atualização de uma fotografia que acabaste de publicar. E ali estás tu: lindo, calmo e sereno como se não houvesse alguém no mundo a dar voltas e voltas na cama sem te conseguir esquecer. Mas há.  

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Sente a dor*



Sente a dor. Inspira. Expira. Sente a dor. Avança. Recua. Sente a dor. Seca as lágrimas e pensa. Enfrenta. Analisa. Repensa. Tenta encontrar respostas. Não, não é esse o caminho. Não pode começar pelas respostas, mas sim pelas perguntas. Procura um fio condutor. Sente a dor. Não encontra, nada encontra. Reflete. Observa passado, presente e futuro. Não concretiza. Desenvolve teorias. Nenhuma é válida. Escuta. Silêncio. Pestaneja. Volta à profundidade dos pensamentos. Sente a dor. Energia abaixo de zero. Recarrega. Não o suficiente, mas é suficiente. Persegue a lógica. Não há lógica, não há razão. Vagueia. Divaga. Baseia-se no fantasioso. Volta ao real. Foca. Usa o raciocínio. Nada serve, nada explica, nada existe. Expira. Inspira. Suspira. Sente a dor. Conta até três. Seca as lágrimas. Levanta-se. Sente a dor. Enfrenta-a. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Chamada*


Entro no autocarro, sento-me. Ela entra em seguida a falar ao telemóvel. Fala em voz alta como se no mundo só habitassem os dois: ela e ele. Ele, do outro lado, vai respondendo ao bombardeamento de perguntas a que está sujeito. Farta-se. Os tons de voz elevam-se. Ela senta-se. Discutem por coisas tão banais que se torna ridículo sequer serem lembradas. Ela troca de lugar e de tom. Finge-se aborrecida com a desatenção irreal dele para com ela e que só existe na cabeça dela. Implora-lhe que a trate como se fosse única no mundo dele e sabe que o é. Ele chama-a de fofinha e princesa. Ela de parvo e tonto, entre amuos e sorrisos. Como os invejo!
Aos poucos, a ternura vem ao de cima e ela confessa que ele a anda a habituar mal com tanto mimo. Já não sabe o que é dormir sozinha, sem o ter a seu lado. Dão risadas tímidas entre piropos. Como gostava de ter alguém assim!
           Despedem-se. Desliga a chamada com a saudade já a apertar e segue viagem com um eterno e doce sorriso nos lábios.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Troca*



Trocava todos os “olá” por um “olá” teu. Todos os olhares, os sorrisos, os risos e suspiros por um só teu olhar, sorriso, riso ou suspiro. Tudo o que singularmente venha de ti é especial, único e, simultaneamente, o todo que me preenche. É o todo que me basta para me fazer sentir feliz e completa. Largava tudo, num só segundo,  para estar novamente envolta nos teus braços. É incrível como tanto esforço comparado com a tua simplicidade e unicidade se desvanece e torna nulo. Só há um problema: todos os “olá”, risos e sorrisos só tu me podes dar. Por isso, volta, vem sem demoras nem atrasos. No silêncio. Nem precisas de contigo trazer todas as desculpas contadas, inventadas e reinventadas. Mas vem, volta. Traz-te a ti, completo, como só o teu ser, sem adornos, sabe existir. O tempo passe e entardece. Não demores. Apressa-te. Estou à espera do teu “olá”, envolto num sorriso que me derrete com o teu olhar. Estou à tua espera.