domingo, 3 de agosto de 2014

Saudade*



     [Saudades do pôr-do-sol. Do tempo em que o mar se reflectia nos meus olhos. Do dourado que nos cabelos resplandecia. Saudades do tempo que já foi e já não o é. Saudades de mim, do que fui, do passado que me tornou presente. Nostalgia da esperança que existiu. Melancolia ao reviver o vivido.]


     É nesta rua que ela caminha. Pensa e repensa, solidão no meio da multidão. Vê o que já foi, no que se tornou e o que poderá vir a ser. Acima de tudo, anseia conseguir ser ela própria. Única, com todas as suas qualidades e defeitos, maneira de ser, enfim, ser-se a si mesma. Passo após passo, ataca o solo que milhares de pés já atacaram, ou este os atacou. A típica calçada portuguesa faz com que, por vezes, o ritmo da passada seja cambaleante. Avança no percurso e recua com o pensamento. Dois lugares, o mesmo instante. Lugar físico e lugar memorizado coexistem em simultâneo. Ela recorda onde já esteve, o que já sentiu, o que já viveu. E é ao recordar que sente, bem de perto, o nome da rua que percorre: saudade.

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